Mais do que uma data de comemoração, o Dia Internacional das Mulheres serve como uma época para reflexão. Lembrado em 8 de março, o período é importante para estimular debates sobre a condição das mulheres, que ainda sofrem com desigualdade salarial, por exemplo. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o salário de pessoas do sexo feminino é 20,5% menor, em média, do que o de homens. Outro problema grave é a violência. De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a cada dois minutos uma mulher é vítima de violência doméstica no país.

Nesse contexto, é muito importante que exista apoio entre mulheres, para que sejam criados espaços seguros de diálogo e empatia mútua. E um conceito que define esse tipo de ação é “sororidade”. Definida como a solidariedade feminina, a palavra engloba ações que amenizam as dificuldades cotidianas das mulheres.

A empresária Sylvia Bellio, que é especialista em infraestrutura de TI e CEO da it.line, empresa considerada maior revendedora da Dell no Brasil por quatro anos consecutivos, afirma que é essencial colocar em prática ações de sororidade. Há mais de 15 anos empreendendo, única mulher no conselho das empresas revendedoras da Dell e autora de dois livros sobre tecnologia, uma área onde a desproporção entre homens e mulheres é bastante grande, Sylvia já passou por situações de sexismo e precisou se posicionar em algumas circunstâncias.

Sylvia considera que uma de suas missões é incentivar outras mulheres a atuarem na área de tecnologia ou se destacarem em outras profissões. Para debater sobre essas questões e ainda sobre temáticas como empreendedorismo feminino, ela participa com frequência de eventos como o Dell Women’s Entrepreneur Network (DWEN), cuja última edição ocorreu em dezembro de 2019, na Holanda. Nas edições em que participou do DWEN, Sylvia pôde conviver com mulheres do mundo todo, o que segundo ela, lhe concedeu um panorama sobre os desafios femininos em outros locais.

A empresária que foi muito incentivada pela mãe para conquistar seu espaço como mulher de sucesso, também passa ensinamentos para a sua única filha, Louise Ramas. Sylvia incentivou Louise a participar de duas edições do DWEN, que tem um programa especial no evento para as jovens mulheres.

Louise, que é estudante de relações internacionais e já participou de um curso da Organização das Nações Unidas (ONU) em Nova Iorque, iniciou este ano como trainee na it.line, vislumbrando ser sucessora na empresa e a “próxima geração” de mulheres da família na área de tecnologia. Juntas, ambas atuam para que algum dia a diferença de gênero tanto na área de tecnologia quanto em outras não exista mais.

“Eu sempre acreditei que nós mulheres juntas somos mais fortes. Então, eu faço questão de colocar isso em prática. Nós temos ocupado cada vez mais espaços que nos eram negados somente por sermos mulheres e isso prova que a luta está dando certo”, diz Bellio.

Ações concretas de sororidade

Mais do que repassar os ensinamentos sobre a condição feminina, Sylvia coloca em prática todas as lições sobre sororidade que tem aprendido ao longo dos anos. Ela considera as ações ainda mais importantes do que o discurso, já que uma atitude de empoderamento feminino pode fazer a diferença na vida de uma mulher.

No caso da it.line, a empresária lembra que metade do quadro de funcionários é formado por mulheres. A intenção é gerar oportunidade para que mulheres entrem nesse mercado, que é formado em 80% por homens, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE.

“Existe uma tentativa de explicar que a mulher não atua na área de tecnologia porque existiria uma justificativa biológica para isso.  O que eu penso, é que talento e competência independem de gênero, então, o que falta é espaço e oportunidade para essas mulheres, porque elas estão aí querendo criar programas e tecnologias”, explica a executiva.

Sylvia elenca algumas atitudes práticas de sororidade que podem fazer a diferença na vida das mulheres:

– Sugerir a contratação de mulheres: em algumas situações, o machismo está tão internalizado na sociedade, que acaba afetando também o comportamento de mulheres. Isso acontece, por exemplo, no mercado de trabalho. Às vezes, quando é sugerida a contratação de uma pessoa, é levado em consideração que determinada área “não combina com uma mulher”. Por isso, é importante que as mulheres também se desconstruam e se lembrem de profissionais femininas em épocas de contratação;

– Participar de grupos femininos: é essencial criar o hábito de apoiar e compartilhar experiências profissionais e pessoais com outras mulheres. Essa rede de trocas serve para que sejam criados espaços seguros que servem para acolher. Mais do que uma rede de trocas mútuas, a sororidade explica que as mulheres estão todas juntas nessa caminhada em rumo a realização profissional e pessoal;

– Incentivar projetos de outras mulheres: a ajuda a outras mulheres pode ser dada de diversas formas, incluindo elogios cotidianos. Além disso, outra forma de apoiar mulheres é incentivando seus projetos de vida. Empreender no Brasil é uma atividade bastante complicada. Por causa disso, é ótima a ideia de consumir ou, ao menos, divulgar os trabalhos de colegas, amigas, vizinhas e familiares;

– Demonstrar empatia e esquecer o julgamento: uma das formas em que o machismo mais afeta as próprias mulheres é em forma de julgamento. Muitas vezes, outras pessoas do sexo feminino acabam sendo percebidas como rivais e outras visões de mundo não são respeitadas. Nesse quesito, é essencial lembrar que a empatia é o conceito chave para que a sororidade seja exercida. O lembrete é importante porque todas as mulheres têm experiências de vida completamente diferentes, o que acaba refletindo nas visões particulares de mundo. Por isso, é importante haver um diálogo respeitoso com outras mulheres.

(Fonte:Terra / Foto: Pixabay / DINO)