Uma equipe de cientistas estudou como alguns tipos de microrganismos se acumulam em plásticos e contribuem para a degradação do material. A esperança é utilizar o mecanismo biológico para diminuir a poluição nos oceanos.

Segundo os especialistas, vários fatores influenciam na fragmentação do material em microplásticos — como os raios ultravioleta, por exemplo. “A degradação precede e estimula a biodegradação, já que os grupos carbonílicos são gerados na superfície [de plástico]”, explicaram os pesquisadores, liderados pelo engenheiro ambiental Evdokia Syranidou, da Universidade Técnica de Creta, na Grécia. “Portanto, uma ampla gama de organismos pode se estabelecer na superfície desgastada, usando-a como substrato e como fonte de carbono.”

Uma experiência feita com dois grupos de plásticos — polietileno (PE) e poliestireno (PS) — se mostrou promissora. Isso porque, após cinco meses de exposição microbiana, as peças de plástico foram pesadas, revelando que os microrganismos conseguiram reduzir as dimensões do polietileno em até 7% e do poliestireno, em 11%.

A equipe também notou que micróbios expostos a plásticos anteriormente se alimentaram mais — como se tivessem “gostado” dos itens. Além disso, a exposição microbiana resultou em mudanças químicas na superfície dos materiais, produzindo grupos carbonílicos e ligações duplas, além de revelar processos como a cisão de cadeias que afetavam o plástico no nível molecular.

Embora os pesquisadores ressaltem a importância de mais estudos na área, eles se mostraram esperançosos. “Fechar a lacuna entre o emprego hipotético e realista de redes microbianas para a degradação plástica pode contribuir para o desenvolvimento de medidas de mitigação e políticas sustentáveis”, escreveu a equipe em artigo.

Fonte: Revista Galileu

Comentário do professor Enrique Campelo:

– Os estudos de degradação de compostos químicos têm mostrado vários microrganismos extremamente versáteis. Trabalhos atuais em biotecnologia indicam fungos e bactérias como principais microrganismos eficientes na degradação de poluentes, possuindo alto potencial de ação na recuperação de ambientes contaminados.

– Vários organismos podem ser utilizados na degradação, como bactérias, fungos ou plantas (biodegradação) e a eficiência de um ou outro depende, em muitos casos, da estrutura da molécula e da presença de enzimas hábeis em degradar o produto, as quais apresentam especificidade para a maioria dos substratos. É por meio deste mecanismo que a biorremediação é efetivada. Este processo é mais provável quando a estrutura química do xenobiótico é semelhante à estrutura de moléculas naturais.

– A biorremediação é um processo no qual organismos vivos, normalmente plantas, microrganismos ou suas enzimas são utilizados tecnologicamente para remover (remediar) ou reduzir poluentes no ambiente. O processo metabólico que tem se mostrado mais apto em biodegradar moléculas xenobióticas (moléculas estranhas ao ambiente natural) recalcitrantes (moléculas de difícil degradação) nos processos de biorremediação, é o microbiano, uma vez que os microrganismos desempenham a tarefa de reciclar a maior parte das moléculas da biosfera, participando dos principais ciclos biogeoquímicos e representando, portanto, o suporte de manutenção da vida na Terra.

– A Agência de Proteção Ambiental Americana (US-EPA) define biorremediação como “o processo de tratamento que utiliza a ocorrência natural de microrganismos para degradar substâncias toxicamente perigosas, transformando-as em substâncias inócuas”. Outro órgão, o American Heritage Dictionary of the American Language, adota a seguinte definição: o uso de agentes biológicos como bactérias e plantas, para remover ou neutralizar contaminantes do solo e da água.

– Dessa forma, é possível compreender a importância do uso dos microrganismos como ferramenta biotecnológica para a remediação de áreas contaminadas, bem como para o tratamento dos mais diversos  tipos de resíduos.

 

Graduado em Licenciatura Plena em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Pará – UFPA. Atua como Professor do Ensino Fundamental, Ensino Médio, Educação de Jovens e Adultos (EJA) na disciplina Biologia Geral. Atua como autor de material didático de instituições de ensino voltadas ao ENEM. Tem experiência em Laboratório com ênfase em Investigações em Neurodegeneração e Infecção da UFPA (HUJBB) e no Laboratório de Biologia Molecular e Celular do Núcleo de Medicina Tropical da UFPA (NMT).