24/01/19

“Sangue dourado” soa elegante, mas quem tem esse tipo sanguíneo corre mais riscos que a maioria da população em situações de vida ou morte.

O RH nulo, também chamado de sangue dourado, é o tipo sanguíneo mais raro do mundo.

Para entender do que se trata é preciso analisar a classificação dos grupos sanguíneos. Os glóbulos vermelhos que formam o sangue estão cobertos de proteínas chamadas de antígenos.

O sangue tipo A tem antígenos A, o sangue B tem antígenos B, o sangue AB tem antígenos de ambos e o tipo O, nenhum dos dois.

Os glóbulos vermelhos também têm outro tipo de antígeno, o chamado RhD, que é parte de uma família formada por 61 antígenos tipo Rh. Quando o sangue tem RhD, é de tipo positivo. Quando não tem, é tipo negativo.

É assim que se formam os tipos de sangue mais comuns: A+, A-, B+, B-, AB+, AB-, O+, O-.

O tipo de sangue é vital no momento de uma transfusão.

Se uma pessoa é do grupo negativo e recebe sangue de um doador positivo, seus anticorpos vão reagir ao detectar células incompatíveis com seu sangue, o que pode ser fatal.

Com base nessa mesma lógica os portadores de sangue O- são considerados os doadores universais. Como seus glóbulos vermelhos não têm antígenos A, B, nem RhD, o sangue pode mesclar-se com outro tipo sem ser rechaçado como agente estranho.

Tesouro perigoso

Entre todas as possíveis combinações, o sangue Rh nulo é o mais raro.

Um tipo de sangue é Rh nulo quando seus glóbulos vermelhos não tem nenhum tipo de antígeno Rh.

Segundo a explicação de Penny Bailey no Mosaic, um portal de investigação biomédica, este tipo de sangue foi detectado pela primeira vez em 1961 em uma mulher australiana. Desde então, só foram registrados 43 casos de pessoas com Rh nulo no mundo todo.

Esse tipo de sangue é adquirido de maneira hereditária, segundo explicou à BBC Mundo Natalia Villarroya, médica especialista em hematologia da Universidade Nacional da Colômbia.

“Pai e mãe devem ser portadores dessa mutação”, afirma.

O sangue Rh nulo pode ser um “tesouro” ou um risco, dependendo do ponto de vista. Por um lado, pode ser doado a qualquer pessoa com os tipos sanguíneos tradicionais dentro do sistema Rh e Rh negativo.

Portanto, em tese, o “sangue dourado” tem alta capacidade de salvar vidas.

No entanto, ele é extremamente difícil de conseguir. “É por isso que recebeu o apelido de sangue dourado”, explica o médico Thierry Peyrad, diretor do Laboratório Nacional de Referência em Imunohematologia de Paris, citado no artigo de Bailey.

Trata-se de um tipo sanguíneo tão precioso e raro que, ainda que os bancos de sangue sejam anônimos, houve casos de cientistas que conseguiram rastrear os doadores para pedir amostras para investigações científicas.

Riscos

E o portador deste tipo raro de sangue paga um preço caro. Segundo o Centro de Informação de Doenças Raras dos Estados Unidos, quem tem sangue Rh nulo pode padecer de anemia leve.

Além disso, no caso de precisarem de transfusão, só poderiam receber Rh nulo- algo extremamente complicado, não apenas pela pouca quantidade de pessoas com esse tipo sanguíneo, mas também pelas dificuldades de transporte do sangue de um país a outro.

Atualmente, as pessoas que tem “sangue dourado” vivem em diferentes países, alguns distantes entre si, como Colômbia, Brasil, Japão, Irlanda e Estados Unidos.

Os portadores de Rh nulo, portanto, costumam tirar sangue para guardar de reserva caso tenham que doar a si mesmos no futuro. Também são encorajados a disponibilizar quantidades para servirem de reservas às outras poucas pessoas que compartilham dessa condição, caso venham a necessitar de transfusões.

Fonte: BBC News Brasil

Comentário do professor Enrique Campelo:

Conhecendo um pouco sobre Grupos Sanguíneos

– Em 1900, o médico austríaco Karl Landsteiner, prêmio Nobel de Medicina de 1930, descobriu os grupos sanguíneos. Ao misturar sangue de algumas pessoas com o soro de outras, Landsteiner observou que ora ocorria aglutinação das hemácias, ora nada acontecia.

– Em função dessa distinção, ele classificou as pessoas em quatro grupos sanguíneos: A, B, AB e O. Prosseguindo com suas pesquisas, Landsteiner constatou que a aglutinação das hemácias era provocada por uma reação imunológica do tipo antígeno-anticorpo. Em 1902, os tipos sanguíneos do sistema ABO foi completado graças a descoberta do grupo AB por De Costello e Starli.

– Em 1940, Landsteiner e Wiener descobriram outro antígeno no sangue de certas pessoas e a ele deram o nome de antígeno (ou fator) Rh. Não era de se estranhar que esse antígeno só tenha sido revelado quarenta anos após a descoberta do sistema ABO, pois, ao contrário do que ocorre nesse sistema, os anticorpos anti-Rh não ocorrem naturalmente no indivíduo adulto.

– Assim sendo, para evidenciar o antígeno Rh, os pesquisadores necessitaram antes produzir o anticorpo correspondente a ele, o que foi conseguido injetando hemácias de macacos rhesus em coelhos. Nessas condições ocorre a resposta imune, ou seja, o organismo da cobaia reage produzindo anticorpos específicos. Em seguida, os pesquisadores retiraram o soro das cobaias, isolaram os anticorpos anti-Rh e testaram esses anticorpos com sangue humano. Verificaram que há dois tipos de pessoas:

  1. A) Aquelas cujo sangue reage com os anticorpos anti-Rh, o que indica que elas possuem antígenos Rh (Rh+);
  2. B) Aquelas cujo sangue não reage com os anticorpos anti-Rh, pelo fato de não possuírem esse antígeno (Rh-).

– O padrão de herança do sistema Rh obedece integralmente às leis mendelianas, ou seja, é condicionado por um par de alelos, R e o r, onde R é dominante e determina a presença da glicoproteína (antígeno) Rh no sangue e o alelo r determina a ausência desse antígeno. Portanto, o portador do genótipo RR ou Rr será Rh+ e o portador do genótipo rr será Rh-.

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Graduado em Licenciatura Plena em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Pará – UFPA. Atua como Professor do Ensino Fundamental, Ensino Médio, Educação de Jovens e Adultos (EJA) na disciplina Biologia Geral. Atua como autor de material didático de instituições de ensino voltadas ao ENEM. Tem experiência em Laboratório com ênfase em Investigações em Neurodegeneração e Infecção da UFPA (HUJBB) e no Laboratório de Biologia Molecular e Celular do Núcleo de Medicina Tropical da UFPA (NMT).