04/10/2018

A nanotecnologia pode ajudar a reduzir efeitos colaterais de medicamentos no combate a tumores cancerígenos. Uma nova combinação farmacêutica, desenvolvida pela professora Mônica Cristina de Oliveira, do departamento de Produtos Farmacêuticos da Faculdade de Farmácia, utiliza lipossomas para transportar fármacos até a área afetada pelo tumor. O novo medicamento associa a cisplatina – substância já utilizada em quimioterapia – à inovadora tecnologia dos lipossomas.

Segundo a pesquisadora, além de altamente tóxicos, os quimioterápicos circulam por todo o organismo, atuando inclusive em partes onde não há tumores. “Com essa tecnologia, buscamos aumentar a eficácia dos tratamentos já existentes, reduzindo a toxicidade e a dosagem do medicamento utilizado”, explica Mônica Oliveira, que está negociando a transferência da tecnologia para uma empresa mineira de pesquisa clínica. A professora depositou o pedido de patente por meio da Coordenação de Transferência e Inovação Tecnológica (CT&IT) da Universidade. Suas pesquisas são desenvolvidas com recursos do CNPq e da Fapemig.

Testes

Para chegar ao novo medicamento, a pesquisadora realizou estudos com os constituintes mais apropriados à associação de acordo com a via onde serão injetados. Foram testados a concentração dos componentes, métodos de preparo e tamanho das nanopartículas, entre outras variáveis.

O maior desafio, segundo a professora Mônica Oliveira, é programar os lipossomas para burlar o reconhecimento de defesa do organismo e entregar o fármaco no local desejado. “O lipossoma funciona como uma cápsula, dentro da qual está o fármaco, e há alguns métodos para levá-lo à área afetada”, diz a professora. Em um dos métodos, modifica-se a superfície do lipossoma, induzindo-o a absorver maior quantidade de água. “Com esta alteração, o lipossoma não pode ser capturado pelo fígado, pelo baço ou pela medula óssea, permanecendo na corrente sangüínea por tempo suficiente para chegar à área do tumor”, explica a professora. Também é possível adicionar ligantes específicos a cada lipossoma, permitindo sua conexão a receptores de células que se pretende atingir.

Mônica Oliveira também desenvolve estudos com o uso de lipossomas na elaboração de kits para pesquisa na área de biologia molecular, assim como no transporte de ácidos nucléicos em terapias gênicas e antisense. Esse processo é benéfico, pois impede a leitura de partes defeituosas do RNA, evitando a formação de proteínas indesejáveis ao organismo.

Ao lado do professor Valbert Cardoso, do departamento de Análises Clínicas e Toxicológicas, Mônica Oliveira pesquisa, ainda, o desenvolvimento de material de diagnóstico com o emprego de lipossomas marcados com isótopo radioativo. Esses lipossomas emitem raios gama capazes de gerar imagens que permitem a identificação de focos inflamatórios e infecciosos em estágios iniciais.

Em rede

O trabalho desenvolvido por Mônica Oliveira integra a Rede Mineira de Pesquisas em Nanobiotecnologia, criada no final de 2002, por iniciativa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig). “Na nanotecnologia, a multidisciplinaridade é fundamental”, ressalta a professora, ao lembrar que a área precisa da agregação de competências.

Há seis anos envolvida com estudos em tecnologia farmacêutica, ela afirma que suas pesquisas dependem da parceria com professores das áreas de biofísica, radiofarmácia, química, física, medicina, envolvendo pesquisadores da Faculdade da própria Farmácia, do ICB, do ICEx, da Faculdade de Medicina e de outras instituições, como a Comissão de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (CDTN) e da Fundação Centro Tecnológico de Minas Gerais (Cetec-MG).

Agora, os integrantes da Rede de Pesquisas em Nanobiotecnologia preparam-se para iniciar investigações clínicas com novo medicamento para tratamento do câncer, projeto que acaba de ser aprovado pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).

Lipossomas: Nanopartículas lipídicas, semelhantes às células, em geral são produzidas com matéria-prima de origem sintética ou extraída de soja ou ovo. Os lipossomas podem transportar fármacos e entregá-los preferencialmente na região acometida pela doença.

Comentário do professor Enrique Campelo:

  • Os lipossomos, formados a partir de interações fosfolipídicas, têm sido utilizados na administração de uma variedade de substâncias terapêuticas para alcançar órgãos e tecidos específicos.
  • A incorporação de drogas de rápida metabolização em lipossomos permite liberação dessas substâncias por um período longo, o que aumenta sua eficácia. Suas características biofísicas e bioquímicas, os permitem carregar compostos com características hidrofílicas e hidrofóbicas, sendo os primeiros no interior aquoso e os últimos no interior da bicamada lipossômica.
  • Este fenômeno só acontece por sua composição e estrutura serem as mesmas das membranas plasmáticas formadoras das células de todos os seres vivos.
  • A figura a seguir representa a estrutura de um fosfolipídeo e suas diferentes interações em meio aquoso:

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Graduado em Licenciatura Plena em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Pará – UFPA. Atua como Professor do Ensino Fundamental, Ensino Médio, Educação de Jovens e Adultos (EJA) na disciplina Biologia Geral. Atua como autor de material didático de instituições de ensino voltadas ao ENEM. Tem experiência em Laboratório com ênfase em Investigações em Neurodegeneração e Infecção da UFPA (HUJBB) e no Laboratório de Biologia Molecular e Celular do Núcleo de Medicina Tropical da UFPA (NMT).