17/09/2018

Por que a América portuguesa se tornou um único país, enquanto a América espanhola se fragmentou em outros tantos?

Não há apenas uma única razão, mas várias, segundo historiadores com quem a BBC News Brasil conversou. E, para quem busca respostas fáceis, um alerta. Não há unanimidade nas conclusões.

(Ilustração: Kako Abraham)

Maiores distâncias, diferentes estilos de administração

Uma das causas tem a ver com a distância geográfica entre as cidades das antigas colônias e a forma como as duas possessões eram administradas por suas respectivas metrópoles.

Ainda que a colônia portuguesa tivesse dimensões continentais, a maior parte da população se concentrava em cidades costeiras, enquanto o interior permanecia praticamente inexplorado, lembra à BBC News Brasil o historiador mexicano Alfredo Ávila Rueda, da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM).

“É verdade que, hoje, o Brasil é um país enorme, com mais de 8 milhões de km². Mas, na prática, na época da independência, as principais cidades se concentravam no litoral. As distâncias entre as cidades eram, assim, menores do que na América Espanhola. O interior era praticamente território que não era controlado pela Coroa portuguesa”, diz.

Já a América Espanhola era formada por quatro grandes vice-reinados: Nova Espanha, Peru, Rio da Prata e Nova Granada, com poucos vínculos – senão comerciais – entre si. Cada um deles respondia à Coroa e tinha vida própria.

Ou seja, eram administrados localmente. Além disso, foram criadas capitanias que tinham governos independentes desses vice-reinados, como as da Venezuela, Guatemala, Chile e Quito, acrescenta Ávila Rueda.

“A administração espanhola se deu em torno de duas ‘sub-metrópoles’: México e Peru. Isso não aconteceu no Brasil, onde a administração era muito mais centralizada”, explica o historiador mexicano.

(Ilustração: Cecilia Tombesi)

Fonte: BBC Brasil (matéria na íntegra)

Comentário da professora Luzia Gabriele:

  • Em 7 de setembro de 1822 foi declarada a Independência do Brasil. Todavia, tal fato não representaria uma união sólida das províncias brasileiras. Algumas delas, como a do Grão-Pará, resistiram em reconhecer legitimidade na ação liderada por D. Pedro e por membros do Partido Brasileiro;
  • O Grão-Pará só integraria o Brasil recém independente em agosto de 1823. A integração territorial esteve ainda eminentemente ameaçada por movimentos separatistas, a exemplo da Confederação do Equador, em 1824, e das rebeliões regenciais, que se estenderam de 1835 até o início do Segundo Reinado, em 1841;
  • O processo de construção de uma identidade nacional brasileira e de consolidação da nossa unidade territorial teve início de forma efetiva após a declaração de Independência, feita por ninguém menos que o príncipe herdeiro do trono português, D. Pedro;
  • As lutas travadas no sentido de manter as províncias brasileiras unidas nos ajudam a entender os motivos que nos diferenciaram das antigas colônias espanholas. Essas, concretizaram seus processos de independência em diferentes momentos da primeira metade do século XIX e pela ação de diferentes líderes, merecendo destaque para o venezuelano Simón Bolívar e para o argentino José de San Martín;
  • As diferenças no processo de administração das colônias ibéricas, bem como os acontecimentos que marcavam a história de Portugal e Espanha no início do século XIX, explicam o fato do Brasil ter permanecido unido, enquanto os vice-reinos e capitanias da Espanha terem se emancipado politicamente da metrópole separadamente. Os dois países ibéricos foram impactados pelas guerras Napoleônicas de diferentes maneiras;
  • Enquanto o rei espanhol Fernando VII foi deposto e preso por Napoleão (o que impediu a Espanha de manter um rígido controle colonial entre 1808 e 1813), o príncipe regente português D. João fugiu de Portugal, transferindo a Corte para a cidade do Rio de Janeiro, em 1808. Daqui, D. João governou Portugal e seus domínios até 1821. Tal fato marcou de maneira definitiva e significativa nosso processo de independência.