21/06/2018

Quando aprendemos sobre as hipóteses de Darwin em relação à sobrevivência do gene mais bem adaptado, não paramos para pensar no impacto que isso tem no nosso cotidiano, como se a ciência fosse muito distante de nós ou como se a evolução genética fosse imperceptível.

Caímos na falácia de que é necessário muito tempo para poder observar mudanças físicas, fruto da seleção de genes mais aptos à sobrevivência. Mas, sobretudo, caímos na falácia de como todo o processo é natural, acontecendo sem influência do desejo humano.

A imagem acima mostra como o apreço estético humano produziu, em apenas 200 anos, alterações nos genes de determinadas raças de cães a ponto de mudar radicalmente o fenótipo dos cachorros. Claro que isso se deve ao apelo do mercado de cães de raça, símbolo da aristocracia europeia. Mas além da crítica à mais-valia ou aos maus tratos gerados pela comercialização de animais domésticos, o que nos interessa aqui é entender como essas mudanças ocorreram.

Criadores de determinadas raças escolhiam os cães que julgavam mais bonitos para procriar. Dessa forma, o basset hound que possuía genes para as orelhas mais compridas era sempre o escolhido para se reproduzir, passando o gene para as gerações adiante. A tal seleção natural pode não ser tão natural assim.

DNA: o código de programação da vida

Manipulado desde sempre através de nossas escolhas, o DNA só foi descoberto pela ciência em 1953. Quatro tipos de nucleotídeos diferentes, quando combinados, guardam mais de 150 Zettabytes de informação. É através desse imenso código que o DNA programa quais as nossas características físicas, nossas tendências a desenvolver determinadas doenças, além de um tanto da nossa personalidade.

Mas desde os anos 1970, cientistas tentam alterar o genoma de seres vivos, seja bombardeando plantas com radiação para tentar provocar mutações genéticas que levassem a alguma alteração interessante, seja inserindo trechos de DNA de determinadas espécies em outras.

É através desse tipo de estudo que é possível, hoje, produzir anticoagulantes ou hormônios sintéticos para tratamento de doenças, como é o caso da insulina utilizada por diabéticos ou mesmo a testosterona utilizada para a terapia hormonal de homens transexuais. Para se ter uma ideia, até pouco tempo era necessário retirar a insulina naturalmente produzida por porcos diretamente de seus pâncreas para que pessoas diabéticas pudessem se tratar.

Alimentos transgênicos e animais geneticamente modificados

O primeiro alimento geneticamente modificado, o que é conhecido como alimento transgênico, foi comercializado em 1994. Tratava-se do tomate Flavr Savr, alterado para durar mais tempo nas prateleiras dos supermercados com a supressão da ação de uma enzima que contribuía para o apodrecimento da fruta.

Também nos anos 1990 foram registradas as primeiras técnicas de fertilização utilizando-se genoma de três humanos, a fim de combater problemas de infertilidade.

No início do século XXI, a alteração genética já estava tão presente nos laboratórios científicos que começamos a criar características em espécies de animais por pura diversão. O peixe paulistinha recebeu inserções de DNA de águas-vivas em seu código genético para brilhar no escuro, deixando os aquários mais bonitos. A empresa taiwanesa responsável pela alteração, a Taikong Corporation, apresentou a novidade em 2001 e em 2002 o TK-1, ou “paulistinha pérola noturna” foi ao mercado aquarista, já com alterações genéticas que os impediam a reprodução, para evitar que os genes modificados fossem passados a novas gerações.

Fonte: Canaltech

Comentário do professor Enrique Campelo:

Chamamos de Engenharia Genética a uma série de processos que envolvem a manipulação de genes de diferentes organismos, dos vírus ao homem. Assim, por meio de modernas técnicas de laboratório, a Engenharia Genética permite:

  • Isolar um gene, ou seja, remover da célula um fragmento específico do DNA e identificar a sequência de seus nucleotídeos;
  • Manufaturar um gene, isto é, juntar os nucleotídeos e produzir um gene normal, ou mesmo alterar a sequência desses nucleotídeos, produzindo um gene mutante;
  • Inserir no DNA de um vírus ou de uma bactéria um gene retirado de outro organismo;
  • Introduzir artificialmente genes construídos em outras células, para que eles possam realizar processos de replicação e transcrição.
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Graduado em Licenciatura Plena em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Pará – UFPA. Atua como Professor do Ensino Fundamental, Ensino Médio, Educação de Jovens e Adultos (EJA) na disciplina Biologia Geral. Atua como autor de material didático de instituições de ensino voltadas ao ENEM. Tem experiência em Laboratório com ênfase em Investigações em Neurodegeneração e Infecção da UFPA (HUJBB) e no Laboratório de Biologia Molecular e Celular do Núcleo de Medicina Tropical da UFPA (NMT).