04/06/2018

Considerado o livro acadêmico mais influente de todos os tempos, A Origem das Espécies faz parte do cânone de todo o amante da ciência. Mas a edição mais conhecida do livro, a sexta, possui várias alterações feitas pelo naturalista Charles Darwin após receber ferrenhas críticas da Igreja, da imprensa e até mesmo da academia.

A GALILEU conversou com o biólogo Nelio Bizzo, professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e fellow da Royal Society of Biology de Londres. Bizzo é especialista em darwinismo e escreveu o prefácio da nova edição de A Origem das Espécies, publicada pela Edipro. Conheça três mudanças feitas em A Origem da Espécies por pressão da sociedade do século 19:

  1. Epígrafe que vai contra suas ideias

Uma das estratégias usadas por Darwin para amenizar a fúria da crítica foi o acréscimo de mais um trecho na epígrafe de A Origem das Espécies. Além dos parágrafos do anglicano William Whewell e do filósofo Francis Bacon, o naturalista incluiu, na segunda edição, um trecho do bispo anglicano Joseph Butler que falava sobre a importância de milagres e de um “fator inteligente” para a evolução da vida — ideia totalmente oposta à de Darwin.

“É uma epígrafe absolutamente alinhada a uma perspectiva muito conservadora, uma perspectiva que colide totalmente com as ideias do próprio livro”, afirma Bizzo. “A fonte do trecho é Analogy of Revealed Religion, um livro estudado há mais de cem anos que tratava da religião revelada e da religião natural”.

  1. Inclusão da palavra “Criador”

“Há grandiosidade nessa forma de conceber a vida,” escreveu Darwin na última página de sua maior obra, “com seus diversos atributos, como algo soprado em poucas formas ou em apenas uma; e é igualmente grandioso saber que, enquanto este planeta gira de acordo com a lei fixa da gravidade, infinitas formas, as mais belas e maravilhosas, tenham iniciado a partir de uma origem muito simples, e mantenham em marcha sua evolução.”

O termo em itálico chamou atenção da crítica e, por pressão, Darwin colocou o complemento “pelo Criador” neste e em outros trechos do livro. “Na primeira edição, o sopro não tem um agente. Então, para o leitor, fica uma dúvida se isso seria uma figura de linguagem, uma sofisticação literária ou uma licença estilística”, explica Bizzo, que afirma que dificilmente Darwin acreditava no que estava adicionando na segunda edição.

“Parece muito mais uma concessão às críticas que tomaram conta dos meios literários britânicos daquela época”, analisa.

  1. Exclusão do parágrafo sobre seleção sexual

Na sexta edição, a última revisada pelo autor e que mais se popularizou, Darwin suprimiu o parágrafo que falava sobre a sua teoria da seleção sexual aplicada aos seres humanos.

Acontece que nesse trecho o cientista dizia que “sem entrar em muitos detalhes, meu [seu] raciocínio pareceria superficial”. Um ano antes da publicação da sexta edição, em 1871, Darwin tinha lançado A Descendência do Homem e Seleção em Relação ao Sexo, que era inteiramente dedicado a discutir essa questão.

“Portanto, se ele não tivesse suprimido essa frase de A Origem das Espécies, isso seria tomado como um descuido. Porque ele tinha acabado de publicar um livro inteiro sobre isso e tinha entrando em muitos detalhes”, explica Bizzo.

Livro A Origem das Espécies

Firme às suas ideias

Apesar de fazer algumas pequenas concessões aos críticos em sua obra, para então poder popularizar sua teoria, Darwin tinha convicção da veracidade e relevância de suas ideias. “Todas as alterações foram feitas no sentido de abrandar a radicalidade das ideias da primeira edição”, afirma Bizzo.

Uma das ocasiões em que o naturalista defende sua teoria com todas as palavras acontece em 1861, logo depois de publicar a segunda edição do livro, ao trocar correspondências com o astrônomo William Herschel, um dos cientistas mais renomados da época.

Nas cartas, Herschel, que não era um criacionista puro, diz acreditar em algum direcionamento nos processos evolutivos. Darwin, no entanto, responde que, apesar de parecer que os seres vivos tinham sido projetados de maneira inteligente, ele próprio não conseguia ver nenhuma indicação de que isso realmente tinha acontecido.

Fonte: Revista Galileu

Saiba mais: Documentário A Evolução das Espécies de Charles Darwin – History Channel Brasil

 

Comentário do professor Enrique Campelo:

Entre dezembro de 1831 e outubro de 1836, o naturalista inglês Charles Darwin (1809 – 1882) realizou uma viagem ao redor do mundo a bordo do navio M.S.Beagle. Durante essa viagem, coletou muitos animais, plantas e fósseis de diferentes locais por onde o navio passou. Com base em observações da natureza, Darwin começou a contestar a imutabilidade das espécies.

Nos 20 anos que se seguiram após o seu retorno, Darwin trabalhou em muitos outros projetos de pesquisa e amadureceu suas ideias sobre evolução, o que culminou com a publicação, em 1859, do livro que começou a mudar a história da Biologia: A origem das espécies por meio da seleção natural.

Em seu livro, Darwin propunha duas ideias centrais:

  • Todos os organismos descendem, com modificações, de ancestrais comuns;
  • A seleção natural atua sobre as variações individuais, favorecendo as mais aptas.

A seleção natural deve ser entendida como um processo evolutivo e, como tal, não tem finalidade ou intenção. Deve-se evitar dizer que uma espécie desenvolveu uma adaptação, ou que os organismos tentam ou querem se adaptar, pois isso indica finalidade. Além disso, na seleção natural, as variedades fenotípicas que são positivamente selecionadas são aquelas que garantem a sobrevivência e aumentam a chances de sucesso reprodutivo da população, não sendo, portanto, um processo aleatório.

Dessa forma, é importante enfatizar e concluir que as ideias propostas por Darwin são extremamente atuais e continuam sendo motivo de muitos estudos no ramo da Biologia Evolutiva. Sendo assim, a Seleção Natural é mais do que uma teoria; é na verdade um “axioma biológico”.

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Graduado em Licenciatura Plena em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Pará – UFPA. Atua como Professor do Ensino Fundamental, Ensino Médio, Educação de Jovens e Adultos (EJA) na disciplina Biologia Geral. Atua como autor de material didático de instituições de ensino voltadas ao ENEM. Tem experiência em Laboratório com ênfase em Investigações em Neurodegeneração e Infecção da UFPA (HUJBB) e no Laboratório de Biologia Molecular e Celular do Núcleo de Medicina Tropical da UFPA (NMT).