21/05/2018

Salvador, 25 de janeiro de 1835. Foi num sobrado de dois andares, na Ladeira da Praça, que teve início o maior e mais importante levante urbano de africanos escravizados já registrado no Brasil. Era por volta de 1h da madrugada quando um grupo de 50 africanos, das mais diferentes etnias, ocupou as ruas da capital baiana. O levante entrou para a história como a Revolta dos Malês.

É um episódio que evidencia a importância política que os africanos de religião muçulmana tiveram na história do Brasil – com um legado pouco conhecido que perdura até hoje.

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“Na Bahia de 1835, os negros que pertenciam a um dos grupos étnicos mais islamizados da África Ocidental eram conhecidos como malês”, explica o historiador João José Reis, da Universidade Federal da Bahia (UFBA). “O termo malê deriva de imale, que significa muçulmano, na língua iorubá”, decifra o autor do livro Rebelião Escrava no Brasil – A História do Levante dos Malês em 1835.

Do velho sobrado, os rebeldes partiram em várias direções. Um grupo avançou para a Praça do Palácio, onde ficava a cadeia da cidade. Lá, os revoltososos planejavam tomar as armas dos guardas e libertar Pacífico Licutan, o Bilal, líder malê que estava preso para pagar as dívidas de seu senhor. Os demais rebeldes enveredaram por ruas, becos e vielas, batendo nas portas e janelas das casas e convocando pessoas escravizadas e também libertos a se unirem a eles em combate. Cerca de 600 revoltosos, muçulmanos e não muçulmanos, responderam ao chamado e participaram do levante.

O plano de libertar Pacífico Licutan, porém, fracassou. Munidos de lanças, espadas e porretes, os amotinados se viram obrigados a recuar diante de policiais armados com pistolas e baionetas. Desnorteados, fugiram da cidade e pediram ajuda aos escravos do Recôncavo, o coração do escravismo baiano.

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No entanto, a tão esperada vitória não chegou. Os corpos dos 73 rebeldes mortos foram jogados em valas comuns de um cemitério local. Os mais de 500 presos foram interrogados, julgados e punidos.

“A vitória vem de Alá!”, dizia o fragmento em árabe encontrado dentro de um amuleto malê confiscado pela polícia.

As penas variavam de açoites para os escravos a deportação para os libertos. Quatro deles receberam a pena máxima: enforcamento. As autoridades mandaram construir forcas novas no Campo da Pólvora, em Salvador. Mas se esqueceram de contratar um carrasco para fazer o serviço. Na falta de um, os condenados foram mesmo fuzilados, em praça pública, por um pelotão improvisado.

Ao longo da primeira metade do século 19, muitos dos africanos muçulmanos traficados para a Bahia – em sua maioria haussás, etnia que prevalece na região hoje equivalente ao norte da Nigéria – eram soldados capturados durante uma jihad, ou “guerra santa” em árabe.

“Eles se diferenciavam dos demais por serem alfabetizados em árabe e por terem conhecimentos de matemática”, explica Ribeiro.

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Fonte: BBC Brasil (matéria na íntegra)

Comentário da professora Luzia Gabriele:

A Revolta dos Malês eclodiu em 1835, durante o Período Regencial (1831-1840), na Bahia. O termo malê era largamente utilizado naquela província para descrever africanos e descendentes de africanos islamizados e alfabetizados em árabe.

A Revolta dos Malês foi articulada por escravos e libertos de diferentes origens étnicas, com o objetivo de se libertarem do julgo da elite branca baiana. O levante, iniciado em Salvador, se estendeu para o Recôncavo Baiano, mas foi rapidamente reprimido pelas autoridades e elites locais.

O Período Regencial se iniciou com a abdicação de D. Pedro I ao trono do Brasil em favor de seu filho, D. Pedro de Alcântara, na época com apenas 5 anos de idade. Diante de uma grave crise na qual se encontrava o império brasileiro, D. Pedro I retornou para Portugal. A partir desse ato, foi instaurado no Brasil um governo regencial, como previa a Constituição outorgada em 1824. No entanto, houve grande disputa política entre regressistas e progressistas, o que abalou a relação de algumas províncias com o governo central.

Naquele contexto, ocorreram vários levantes provinciais que ameaçaram a manutenção da unidade territorial brasileira. A instabilidade política levou um grupo de liberais anteciparem a maioridade do príncipe e o coroarem como D. Pedro II quando ele tinha apenas 14 anos de idade. Tal episódio ficou conhecido como “Golpe da Maioridade” e marcou o fim do conturbado Período Regencial.