04/04/2018

Depois de sete anos de trabalho, um grupo de 575 botânicos do Brasil e de outros 14 países concluiu a versão mais recente de um amplo levantamento sobre a diversidade de plantas, algas e fungos do Brasil, agora calculada em 46.097 espécies. Quase metade, 43%, é exclusiva (endêmica) do território nacional. O total coloca o Brasil como o país com a maior riqueza de plantas no mundo – a primeira versão do levantamento, publicada em 2010, listava 40.989 espécies. Esse número não vai parar de crescer tão cedo porque novas espécies são identificadas e descritas continuamente em revistas científicas. Em média, os botânicos apresentam cerca de 250 novas espécies por ano.

Os cinco artigos detalhando a segunda versão da Lista de espécies da flora do Brasilforam publicados em dezembro do ano passado na Rodriguésia, do Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ), como forma de prestigiar a revista, que completou 80 anos em 2015. Dali também brota um alerta para as perdas contínuas de variedades únicas de plantas.

Enquanto o levantamento era feito, um grupo de botânicos identificou uma espécie nova de bromélia com uma inflorescência vermelha, a Aechmea xinguana, em uma área de mata já coberta pela água do reservatório da usina de Belo Monte, em construção no norte do Pará. “Alguns exemplares dessa espécie foram resgatados e estavam na casa de vegetação do reservatório, mas as populações naturais se perderam na área alagada”, disse Rafaela Campostrini Forzza, pesquisadora do JBRJ e coordenadora do levantamento.

O trabalho não terminou. Os especialistas em cada grupo de plantas devem começar a incluir as descrições, distribuição geográfica detalhada e outras características de cada espécie no banco de dados on-line Flora do Brasil (floradobrasil.jbrj.gov.br) para servir de base para o Flora do Brasil Online, que deve estar concluído até 2020 para integrar o World Flora Online, com informaçõessobre todas as plantas conhecidas do mundo.

Na trilha dos botânicos, os zoólogos se organizaram e apresentaram também em dezembro de 2015 a primeira versão do Catálogo Taxonômico da Fauna do Brasil (CTFB), resultado do trabalho de cerca de 500 especialistas, que começaram a detalhar as informações sobre 116.092 espécies, a maioria artrópodes, com quase 94 mil espécies ou 85% do total.

Planta feminina de Gnetum leyboldii do Parque Estadual Cristalino, no Mato Grosso, uma das seis espécies de Gnetum da Amazônia: o que parece frutos são na verdade sementes

Elaborado a pedido do Ministério do Meio Ambiente, com financiamento do governo federal, instituições privadas e fundações estaduais como a FAPESP, o Flora do Brasil indica que a Amazônia abriga a maior diversidade do grupo das plantas sem frutos e com sementes expostas, as gimnospermas, que predominaram de 300 milhões até 60 milhões de anos atrás, quando os dinossauros circulavam pela Terra.

Seus representantes mais conhecidos são árvores em formato de cone típicas do clima frio do sul do país, como a araucária, com uma única espécie no Brasil, e quatro espécies de Podocarpus. Dispersas nas matas da região Norte, porém, vivem seis espécies de cipós de folhas largas do gênero Gnetum, que crescem sob o clima quente e úmido ao redor de árvores. Suas sementes vermelhas ou lilases são tão parecidas com frutos que já confundiram até os botânicos.

Fonte: Pesquisa Fapesp

Comentário do professor Enrique Campelo:

A floresta que cobre a maior parte da região ao norte da América do Sul, a Amazônia, corresponde a mais de 30% das florestas tropicais do planeta. É a maior floresta tropical pluvial do mundo, com temperaturas acima dos 20ºC e chuvas abundantes.

A umidade do solo fica retida por densa folhagem e trama de raízes. Esse emaranhado de raízes impede também que grande parte dos nutrientes seja levada pela água que alimenta os rios da região. Como as demais florestas tropicais, a rápida reciclagem da matéria orgânica é fundamental para a manutenção da comunidade, uma vez que o solo é pobre em nutrientes.

A floresta amazônica abriga vários tipos de vegetação que podem ser divididos em matas de: terra firme, igapó e várzea.

A mata de terra firme localiza-se em regiões mais altas, onde não ocorrem inundações. Compactas e estratificadas, suas árvores são de grande porte, como a castanheira-do-pará.

A mata de igapó situada em terrenos baixos, próximos a rios, permanece quase sempre inundada. A vegetação é baixa e adaptada ao solo alagado e mal arejado, apresentando inúmeros arbustos, cipós, epífitas como musgos, bromeliáceas e orquidáceas.

A mata de várzea é temporariamente inundada. Na parte mais alta, o período de inundação é curto e a vegetação assemelha-se à das matas de terra firme. Nas várzeas com maior permanência de água, a vegetação é semelhante à dos igapós.

Com a retirada da vegetação, a pequena parcela de nutrientes do solo é arrastada pela chuva. Essa retirada também diminui a umidade da floresta, pois grande parte da água das chuvas resulta da transpiração da própria floresta e facilita a erosão, podendo levar à desertificação ou à formação de um clima semiárido na região.

Sendo assim, a “preservação” da Amazônia é de interesse mundial. Em primeiro lugar, porque abriga a maior biodiversidade de planeta: cerca de 20% de todos os remédios existentes foram obtidos a partir de produtos das florestas tropicais. Em segundo, a queima das florestas tropicais aumenta o aquecimento global, além de provocar outras alterações climáticas.

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Graduado em Licenciatura Plena em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Pará – UFPA. Atua como Professor do Ensino Fundamental, Ensino Médio, Educação de Jovens e Adultos (EJA) na disciplina Biologia Geral. Atua como autor de material didático de instituições de ensino voltadas ao ENEM. Tem experiência em Laboratório com ênfase em Investigações em Neurodegeneração e Infecção da UFPA (HUJBB) e no Laboratório de Biologia Molecular e Celular do Núcleo de Medicina Tropical da UFPA (NMT).