26/03/2018

O destino é indispensável para quem deseja conhecer a fundo o universo do Egito Antigo. Localizada a 640 quilômetros de Cairo, Luxor guarda túmulos e templos, muitos deles extremamente conservados, que remontam o período dos impérios dos grandes faraós e permitem ao turista vivenciar a história do país por meio de seus próprios olhos.

Talvez a principal atração da cidade seja o Templo de Karnak, considerado até hoje o maior templo do mundo dedicado a um único deus. Construído há cerca de 4 mil anos para celebrar Amon, o edifício possui um lago artificial e tem proporções monumentais: um dos mais de dez salões do templo conta com 134 colunas de 21 metros de altura. Apesar de suas grandiosas dimensões, o templo só foi desenterrado da areia no século 19.

Um dos portões do Templo de Karnak leva a uma avenida ladeada por centenas de esfinges que culminam na entrada do Templo de Luxor, outra preciosidade da região desenterrada apenas no século 19 — há uma mesquita construída em cima de um de seus muros. Com colunas gigantescas de pé até hoje, o local impressionou até os franceses, que levaram um de seus obeliscos para a Praça da Concórdia, localizada no centro de Paris, capital da França. Vale a pena conhecê-lo à noite por conta da iluminação noturna, que confere um ar dramático ao edifício e intensifica a experiência de conhecer um local sagrado dedicado aos deuses Amon, Tut e Khonsu.

Se a curiosidade pelos templos egípcios ainda for grande, vale dar uma esticada ao Templo de Dendara, a 70 quilômetros de Luxor. Trata-se da construção mais bem preservada do Egito Antigo. A fuligem de um incêndio ocorrido há mais de dois mil anos protegeu as pinturas do prédio, mantendo suas cores originais, e o fato de estar enterrado nas areias do deserto até o século 19 fez com que os ladrões não saqueassem as peças que estavam em seu interior (hoje exibidas no Museu Egípcio do Cairo). Fique atento: nos fundos do templo há uma representação em alto-relevo, da rainha Cleópatra e de seu filho com o imperador romano Júlio César, o Cesário.

O visitante que estiver em Luxor deve atravessar o rio Nilo para conhecer outras joias do país. A começar pelo famoso Vale dos Reis, onde fica o túmulo dos principais faraós do Egito e onde também foi encontrado o tesouro de Tutancâmon. Há dezenas de câmaras mortuárias no local, mas o ingresso dado ao turista permite conhecer três deles — o suficiente para se ter uma ideia da preocupação que os antigos reis tinham com a vida após a morte: vendo que as pirâmides eram constantemente saqueadas, os faraós resolveram esconder seus tesouros e suas múmias dentro de montanhas.

Entre as câmaras preferidas pelos turistas, estão a de Ramsés IV, dono de um teto abobadado cheio de pinturas astronômicas, a de Tutmés III, com paredes cheias de figuras representando o Livro dos Mortos, e a de Ramsés I, onde ainda se encontra o sarcófago de granito do faraó que fundou uma das dinastias mais importantes do Egito Antigo.

Em área próxima ao Vale dos Reis, no sopé de um grandioso penhasco, fica o templo mortuário de Hatshepsut, rainha que governou o Egito por 22 anos. Ainda que muitas vezes fosse obrigada a usar barba postiça para impor respeito, a rainha ficou conhecida por comandar um dos períodos mais prósperos do país. Embora o templo tenha sofrido danos com a chegada de governos posteriores e com a presença de muçulmanos e cristãos na região — que fundaram mesquitas e igrejas sobre a estrutura milenar —, muito do seu antigo esplendor foi recuperado, sendo um dos pontos mais visitados pelos turistas atualmente.

Outras estruturas bastante admiradas pelos visitantes da região são os Colossos de Memmon, que consistem em duas estátuas de 18 metros representando o faraó Amenófis III sentado no trono. Mesmo com os rostos desfigurados pelo tempo, impressionam pela grandiosidade: são as maiores esculturas do Egito. Para fechar os passeios na cidade com chave de ouro, recomenda-se um tour de balão. Ver o sol nascer entre o Rio Nilo e o deserto do Saara é, de fato, uma experiência imperdível.

Pelas águas do Rio Nilo

Em vez de voltar para o Cairo, que tal partir de Luxor para Aswann, uma das cidades mais ao sul do Egito, a bordo de um cruzeiro de luxo pelo rio Nilo? O passeio, que percorre 215 quiômetros ao longo de três dias, já se tornou uma tradição imortalizada por turistas famosos. É o caso da enfermeira britânica Florence Nightingale, que contou a experiência por meio de cartas, e da escritora Agatha Christie, que publicou o livro Morte no Nilo inspirado na viagem.

A embarcação costuma ter suítes confortáveis com varandas, um restaurante para almoços e jantares, um salão para festas à fantasia, uma loja de souvenires e uma cobertura com piscinas, espreguiçadeira e bar. O passeio é uma boa pedida para o turista descansar dos passeios feitos em Luxor e para apreciar a bela vista do Egito a partir do rio Nilo, com cenários únicos do deserto, dos campos de agricultura, de cavernas antigas e de ruínas de templos e túmulos. É também por meio desse passeio que os turistas conhecem o Templo de Edfu, conhecido também como o templo da vingança, criado em homenagem ao deus Hórus, e o templo de Kom Ombo, localizado às margens do Nilo e dedicado ao deus-crocodilo Sobek.

O destino final, Aswann, é uma atração a parte. É lá que se encontra o charmoso Templo de Philae, construído em homenagem a Ísis pela rainha Cleópatra. Além disso, é dessa cidade que se parte para a visita ao majestoso templo de Abu Simbel, localizado no extremo sul do país. O trajeto é cansativo — são 3h de estrada em um comboio militar, para que não haja risco de ataques terroristas —, mas o destino final é sublime. Escavados em um rochedo no ano 13 a.C., o templo conta com uma fachada de 33 metros com quatro estátuas colossais do faraó Ramsés II (uma delas, semidestruída por um terremoto há 2 mil anos).

Na parte interna, imagens de guerra ainda coloridas e quatro estátuas: três delas dedicadas aos deuses Amon, Ptah e Rá-Harakhty, além de uma representando o próprio faraó como um deus. Uma curiosidade: na década de 1960, com o objetivo de fornecer energia elétrica ao país, o governo egípcio resolveu alagar a área onde se encontrava o templo de Abu Simbel, obrigando à Unesco iniciar um gigantesco programa de remoção da antiga construção para uma área segura com o apoio de diversos países europeus e dos Estados Unidos.

 

Fonte: Correio Braziliense

Comentário do professor Mateus Norman:

Os grandes monumentos localizados no Egito, hoje considerados pontos turísticos de indispensável visitação aos viajantes mais apaixonados, tinham outros significados no momento de suas construções. Em sua maioria, as obras faraônicas tinham como objetivo engrandecer os deuses (dentre eles, o próprio faraó), assim como marcar aquele governo com um feito sobre-humano, legitimando, assim, a imagem divina do faraó e classificando o poder no Egito Antigo como “teocrático”.

Tal estratégia tinha início já nos contingentes escravizados para erguerem as gigantescas edificações e encontrava seu auge quando tais construções estavam em pé – onde deveriam permanecer por muito tempo para lembrar as gerações posteriores do Império Egípcio dos grandes líderes políticos envolvidos nas suas construções. Hoje, esses pontos turísticos parecem ter excedido as expectativas de seus engenheiros e arquitetos, para sorte de nossa geração, que pode apreciar essas grandes maravilhas da humanidade e, mesmo sem acreditar na divindade do poder faraônico, classificar como “divina” sua contribuição para a posteridade.