Este o 5º de uma série de 5 posts

“Estás sempre aí, bruxo alusivo e zombeteiro,
que revolves em mim tantos enigmas”,
Carlos Drummond de Andrade – A um Bruxo, com amor

Machado de Assis: ceticismo, consciência e serenidade

A consolidação de nossa literatura como Sistema Literário tem seu ápice no século XIX. Embora algumas ficções e produções poéticas tenham sido ambientadas no solo brasileiro, nada se compara, de fato, com o amadurecimento de nossa literatura quando nos debruçamos contextualmente sobre a obra de Machado de Assis (1839-1908). Nos séculos passados, havia produções isoladas, poucos autores construíram unidades no discurso artístico, o que configura essas produções como Manifestações Literárias.

Machado de Assis (1905), pintura de Henrique Bernardelli. Machado é o gênio de nossa literatura. É o grande exemplo que o ambiente e as circunstancia não determinam o destino de um ser humano.

Os românticos tiveram o papel de romper, de fundar uma literatura nacional, disseminando a ideia de consciência de país. Mas, em Machado de Assis, leitor de toda a tradição literária brasileira (e da tradição universal como Shakespeare, Cervantes, a Bíblia), ambientou sua prosa, (sobretudo a segunda fase a partir de Memórias póstumas de Brás Cubas, 1881), de modo extremamente consciente, numa terra repleta de vícios, contradições éticas e morais, sob a ótica de um herdeiro de família escravocrata, de uma elite cômica, fruto de um país não tão sério, como diz Brás Cubas.

Machado falou da terra sem adentrar em questões de identidade nacional, deixou ao leitor, porém, toda uma reflexão a cerca deste solo, plantando uma consciência crítica, literária e um pessimismo lúcido.

Ironia à própria terra

Quando o narrador Brás conta a sua infância, todas as suas traquinagens, a omissão de uma história familiar para lembrar-se de outras mais importantes ao seu interesse, sintetiza a sua formação em solo brasileiro: “Dessa terra e desse estrume é que nasceu esta flor”.

Machado de Assis abordou temas nacionais sem a idealização dos românticos, ironizando essa relação com o país e até mesmo as doutrinas positivistas nas quais se apoiaram os naturalistas: uma consciência crítica de país nascia, com suas desigualdades e instituições corroídas, apoiadas em um sistema econômico que beneficiava quase e sempre quem estava no topo da pirâmide social. Machado deixou uma grande lição aos seus sucessores e para toda a nação de leitores – não é fácil lê-lo.

Naturalismo: o homem seduzido pela terra

‘Nabucodonosor’, por William Blake. Publicado em 1890, O Cortiço aborda o perfil de uma sociedade em transformação do final do século XIX.

Aluísio de Azevedo, em O Cortiço (1890), baseado em ideias deterministas, vai falar de como o ambiente brasileiro seduz o estrangeiro e degenera a moralidade das pessoas. Olavo Bilac, Príncipe dos Parnasianos, aqueles, apoiados em discursos linguísticos sem preocupações outras, valorizando simplesmente o fazer poético, aqueles que entoarão um discurso oco, acadêmico, canta também a pátria, com um viés ufanista, alimentando a Identidade Nacional.

Singularidade simbolista

Os simbolistas Cruz e Sousa (1861-1898) e Alphonsus de Guimaraens (1870-1921), embora com temáticas poéticas distintas, possuem singularidade em suas produções. O Solitário de Mariana, atingido pela morte de sua amada Constança, evoca suas imagens nas igrejas de Mariana. Cruz e Sousa, influenciado por Baudelaire, universalizou temas individuais do homem, dando também dimensões humanas a sentimentos vagos, etéreos e a preconceitos que sofrera.

(Re)descobrir o Brasil

Sobreviventes da Guerra de Canudos, fotografia tirada em 1897, após a destruição do Arraial de Belo Monte.

O Pré-Modernismo, tendência híbrida e de transição para o Modernismo, foi bastante significativo por tematizar a identidade nacional e redescobrir um Brasil não-oficial: o Brasil dos subúrbios, de Lima Barreto (1881-1922), o Brasil do Sertão, de Euclides da Cunha, (1866-1909), o Brasil das ruas, de João do Rio, o Brasil dos imigrantes, de Graça Aranha, o Brasil folclórico, das crianças, do caipira do interior, da nacionalização de recursos naturais, de Monteiro Lobato (1882-1948), do estranhamento poético e da poesia do cotidiano, de Augusto dos Anjos (1884-1914).

Derrubador brasileiro, 1879. José Ferraz de Almeida Júnior.

O nacionalismo de Policarpo Quaresma

“De acordo com sua paixão dominante, Quaresma estivera muito tempo a meditar qual seria a expressão poético-musical característica da alma nacional. Consultou historiadores, cronistas e filósofos e adquiriu certeza que era a modinha acompanhada pelo violão. Seguro desta verdade, não teve dúvidas: tratou de aprender o instrumento genuinamente brasileiro e entrar nos segredos da modinha. Estava nisso tudo a quo, mas procurou saber quem era o primeiro executor e cantor da cidade e tomou lições com ele. O seu fim era disciplinar a modinha e tirar dela um forte motivo original de arte.”
Triste fim de Policarpo Quaresma

Retrato de Lima Barreto, início do século XX. O autor valorizou a crítica social, o engajamento, a luta contra a discriminação e o preconceito racial, que ele próprio sofreu.

Modernismo (1922-1930): a consciência cultural

Ruptura e inovação na literatura

Chego, finalmente, ao Modernismo brasileiro do século XX, iniciado oficialmente na Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo. O Modernismo brasileiro revolucionou nossa arte por apresentar novas propostas de olhar e pensar o país, pensar sua história, pensar sua produção artística, pensar sua cultura, pensar de modo CRÍTICO o nosso Brasil.

Intelectuais e artista modernistas, destaques para Mário e Oswald de Andrade.

O passado revisitado

Ao revisitar o passado, literariamente não o trata mais com o Ufanismo romântico, nem com o olhar religioso, nem com o bacharelismo sem utilidade, mas o vislumbra de modo reflexivo, recontando-o de forma debochada, irônica, expondo que somos frutos de um caldeirão de identidades durante o nosso percurso histórico. É o caso das produções de Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Raul Bopp, entre outros.

Poster do filme

Essa mistura macunaímica se consolidou no século XX, e nos faz repensar o nosso passado como formação de nossa Literatura. Assim, a partir dos modernistas da primeira geração, o tempo e as novas tendências foram consolidando nossas letras, produzindo uma literatura brasileira, de fato, abstraindo o falar regional, o pensar, dando dimensão psicológica ao homem regional, fatores extremamente claros nos Romances de 30.

Como um país que produziu grandes artistas como Claudio Manuel da Costa, Machado de Assis, Oswald e Mário de Andrade, Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Érico Veríssimo, Dalcídio Jurandir, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Manoel de Barros, Darcy Ribeiro, Chico Buarque, Milton Hatoum e muitos escritores e sábios professores ainda não deu certo?

É uma questão que fica à sociologia, à história, à consciência de cada leitor. No entanto, olhar para trás do modo crítico, é desvendar a formação de nossa literatura, que espelha a identidade, a memória e a cultura nacionais. Das manifestações à consolidação, nossa literatura é sim um reflexo do que somos, pois, quando mergulhamos num livro, numa obra de qualidade, sem dúvida não emergimos mais os mesmos.

Essa mudança interior implica na reflexão de fazemos parte de um país diferente e cabe a cada leitor-cidadão reconhecer essas diferenças, a fronteira imaginária que enriquece nossas individualidades, e buscar a conciliação, o respeito e a convivência com o outro.

Conteúdo elaborado pelo professor Rafael Azevedo

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Paraense, Rafael Azevedo nasceu em 1989. Formou-se em Letras em 2016 pela Universidade Federal do Pará e é professor de literatura. Já Publicou poemas e contos em antologias. É um dos autores do livro didático da disciplina de Literatura do Sistema de Ensino Equipe e escreve análises literárias para UNICAMP, PUC e FUVEST. Atualmente está escrevendo um romance e cursa mestrado na UFPA.