12/03/2018

Este o 4º de uma série de 5 posts

Contexto histórico

Em 1808, a chegada da Família Real Portuguesa ao Brasil foi um fator decisivo para o país. Fugindo da invasão napoleônica, parte da Corte, do funcionalismo público, e outros setores da nobreza, aceleram o ritmo do progresso na nova sede do Poder Monárquico, o Rio de Janeiro, alavancando um “desenvolvimento” intelectual na região.

Em outras palavras, inúmeras transformações ocorreram em todos os campos: social, econômico, político e cultural. Com isso, houve crescimento urbano e populacional, a preparação de um público leitor para consumir e fortalecer a literatura. Muitos escritores, pintores, funcionários que prestavam serviços na Metrópole regressaram ao seu país, que já lhes daria as condições necessárias para viver bem economicamente.

Em 1816, quando o Rei D. João VI regressa à Lisboa, o Brasil ascende como Reino. Mas perde um pouco a sua visibilidade. Com os ânimos agitados pela perda de status de um país promissor, em 1822, D. Pedro I proclamou a Independência, ficando como Regente e tornando-se posteriormente Imperador.

Independência: a busca pela autonomia literária nacional

Pedro Américo: Independência ou Morte, 1888.

A Independência do Brasil deu fôlego a um sentimento nacionalista, ufanista, junto da ânsia de criar uma literatura que representasse as nossas raízes histórico-culturais, o povo brasileiro, afastando-se da literatura portuguesa. Vários intelectuais foram tomando posições críticas sobre a proposta, desejando criar uma literatura que identificasse os traços da cultura brasileira. Após ser pensada, surge então a Primeira Geração Romântica, que tematizou o Indianismo e o Nacionalismo, como proposta de criar a Identidade Nacional na Literatura.

Ora, se a língua é uma das formas de identificar o caráter nacional, a pátria, os românticos da Primeira Geração revolucionaram nossa forma de pensar. Se antes era preciso representar com um viés clássico e extremamente europeizado aspectos humanos, agora se encontra na própria terra elementos que servem de matéria-prima à Literatura. Um país novo, recém-independente, livra-se dos padrões clássicos, da visão da Arcádia, e passa a ver o mundo de modo idealista, subjetivo, mais voltado para si e ao projeto político de Nação.

Em 1825, um estudioso da sociedade brasileira, o francês Ferdinand Denis, publicou um livro crítico chamado  Résumé de l’Histoire Littéraire du Brésil (Resumo da História da Literatura do Brasil) no qual questionava que “um país independente precisa de uma literatura independente. E essa independência está expressa tem como expressão original sua fauna, flora e nativos”. Alguns anos depois, essa sua voz ecoaria em alguns jovens idealizadores do Romantismo.

Início do Romantismo

AMOEDO, Rodolfo. Marabá, 1882 (detalhe). A pintura baseia-se no poema de Gonçalves Dias chamado Marabá, tematizando a mestiçagem.

Oficialmente, o Romantismo brasileiro teve início no ano de 1836, com a publicação de Suspiros Poéticos e Saudades, de Gonçalves de Magalhães, considerado um poeta mediano em termos estéticos, que, em Paris, junto de alguns jovens, fundou a Revista Niterói, suporte de um manifesto que rompia com os padrões clássicos e propunha: o índio como herói Nacional, a religiosidade como critério literário e o sentimentalismo como expressão interior.

 

AUGUSTE FRANÇOIS BIARD (1798-1882): Dois índios numa canoa, s.d. Óleo sobre tela, 50×61 cm Paris, Museu do Quai Branly

A poetização do Primeiro Herói Nacional está tanto nos poemas de grande valor de Gonçalves Dias, como I-Juca Pirama (1851), quanto no prosa poética e indianista de José de Alencar, como O Guarani (1857) e Iracema (1865). Obras de tom míticos, enaltecem a mitologia e fundam a ideia de nação, remontando seus primeiros dias de colonização e, claro, romantizando-a.

Falar de elementos da terra era uma característica fundamental para os românticos e, até mesmo na Segunda Geração, a mais egocêntrica de todas, poetas como Casimiro de Abreu, Álvares de Azevedo e Fagundes Varela entoarão em algum momento temáticas brasileiras, integrando-as aos seus modos de escrever e pensar; mas, à medida que várias formas de economia no Brasil vai decaindo, tanto na poesia quanto na prosa, insere-se com questionamentos implícitos e explícitos uma literatura mais consciente, atenta às transformações e à realidade. O poeta Castro Alves, questionando os males da escravidão ao figurar hiperbolicamente a natureza, produz uma poesia condoreira, questionando esse Sistema econômico desumano, ao falar também de elementos da terra com viés social.

A importância do Romantismo foi tão grande que, após esse período, buscou-se pensar o Brasil, construir obras literárias e artísticas ambientadas em solo nacional, valorizando também as particularidades de cada região do país, o chamado Regionalismo, como é caso de Inocência (1872), de Visconde de Taunay.

A idealização de um mascara a indiferença ao outro

Diante da transfiguração do índio como símbolo nacional, constrói-se no imaginário do brasileiro a ilusão de um passado orgulhoso, mítico e belo. O índio visto como símbolo serviu para compensar uma história de extermínio, genocídios e etnocídios e as misturas culturais durante a colonização. Sendo o Brasil um país majoritariamente mestiço, essa exaltação mascarou a herança africana e sua contribuição para a formação da Identidade Nacional. Os africanos, vistos como desimportantes ao fator cultural, ainda eram escravos e, portanto, não idealizados nas literaturas.

Anônimo. Senhora na liteira com dois escravos na Bahia, Brasil, 1860.

Conteúdo elaborado pelo professor Rafael Azevedo 

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Paraense, Rafael Azevedo nasceu em 1989. Formou-se em Letras em 2016 pela Universidade Federal do Pará e é professor de literatura. Já Publicou poemas e contos em antologias. É um dos autores do livro didático da disciplina de Literatura do Sistema de Ensino Equipe e escreve análises literárias para UNICAMP, PUC e FUVEST. Atualmente está escrevendo um romance e cursa mestrado na UFPA.