05/03/2018

Este o 3º de uma série de 5 posts

Ouro Preto, antiga Vila Rica. No século VXIII foi a capital cultural da colônia, destaca-se a arquitetura, a escultura e a literatura.

A formação da literatura brasileira inicia-se desde a chegada dos portugueses ao Brasil. Num primeiro momento, as Letras tinham funções específicas, de teores ideológicos, culturais, econômicos e políticos. A necessidade inicial era buscar compreender e descrever a terra e seus habitantes exóticos, tencionando dominar e aproveitar-se do Novo Mundo. Era o início do século XVI. Saltando o tempo, chegaremos ao século XVIII, em pleno Arcadismo, a nossa discussão aqui.

Na segunda metade do século XVIII, o Brasil passa por um processo de amadurecimento intelectual, uma época em que fica evidente a crise do sistema colonial, surgindo contestações sociais inspiradas na busca pela Independência do Brasil em relação à Metrópole, como é o caso da Inconfidência Mineira (1789). Nesse episódio, vários poetas e intelectuais foram acusados, julgados, condenados, desterrados, mortos. Esse contexto político e social influencia profundamente as produções dos nossos melhores escritores árcades, dando-lhe particularidades que prenunciarão temas abordados com consistência no Romantismo.

Os autores épicos árcades: prenúncios do nativismo

José Basílio da Gama (1741-1795) publicou Uraguai (1769), pequeno poema épico que explora os conflitos entre o colonizador e os nativos, manifestando-se politicamente contra os jesuítas. O religioso José de Santa Rita Durão (1722-1784), autor do poema Caramuru (1781) adota o estilo épico-tradicional de Camões e tematiza um momento histórico do embate entre nativos e europeus. As duas obras se aproximam quanto às temáticas indianistas, abordando a terra selvagem de um Brasil cheio de conflitos de interesses.

Nunca antes na literatura brasileira havia sido explorada a questão dos nativos como parte do processo de colonização e formação da Identidade Nacional. A diferença entre ambos, além dos enredos, é quanto ao estilo. Santa Rita Durão utiliza a forma clássica de Os Lusíadas, construído com decassílabos e dividido em dez cantos, influência do estilo renascentista com o Cultismo. Há temas como: o exagero amoroso, a descrição hiperbólica da natureza, o lirismo, os nativos defendendo o país diante dos colonizadores, apresentação da vida indígena e a questão da implantação da “verdadeira” crença (Catolicismo).


– Bárbaro (a bela diz) tigre e não homem…
Porém o tigre, por cruel que brame,
Acha forças no amor, que enfim o domem;
Só a ti não domou, por mais que eu te ame.
Fúrias, raios, coriscos, que o ar consomem,
Como não consumis aquele infame?
Mas pagar tanto amor com tédio e asco…
Ah! Que corisco és tu…raio…penhasco
Santa Rita Durão – Trecho do Canto VI, narrando a morte de Moema

“Moema” (1866) Victor Meirelles (1832–1903). A obra pertence à chamada corrente indianista – principal movimento artístico da época em que é forjada a noção de uma nacionalidade brasileira. Meirelles pinta Moema sob influência de poemas épicos do Brasil do século XVIII, em especial Caramuru, do Frei José de Santa Rita Durão


Açouta o campo co’a ligeira cauda
O irado monstro, e em tortuosos giros
Se enrosca no cipreste, e verte envolto
Em negro sangue o lívido veneno.
Leva nos braços a infeliz Lindóia
O desgraçado irmão, que ao despertá-la
Conhece, com que dor! no frio rosto
Basílio da Gama – A morte de Lindóia (Canto IV)

Ambas as obras possuem aspectos nativistas, o sentimento de brasilidade que será muito mais evidente no Romantismo. Os dois poetas foram considerados pelos românticos como os expoentes da poesia nacional, por evidenciar a personagem do índio, o qual ia sendo transformado como “elemento-símbolo da pátria”.

Os poetas de Vila Rica

Os poetas mais conhecidos da Arcádia brasileira foram Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga. Como convenção, os poetas árcades utilizavam pseudônimos: Claudio era Glauceste Satúrnio e Gonzaga era Dirceu. O fingimento poético fazia parte do caráter dos poetas árcades. Eles eram burgueses, mas fingiam uma vida harmoniosa e bucólica no campo.

Cláudio Manuel da Costa (1729-1789): poeta de transição

Gravura do poeta Claudio Manuel da Costa. Cada poeta tinha uma musa. A musa de Cláudio era Nise.

Claudio Manuel é um poeta de transição entre Barroco e Arcadismo. Sua produção fui influenciada pelos modelos camonianos de século XVI, da tradição de Virgílio e Petrarca, com sonetos de caráter maneirista (oposições entre civilização e barbárie, Colônia e Metrópole, etc.), ao mesmo tempo em que dá um toque de brasilidade em sua produção, ao citar a natureza rochosa de sua terra natal (Minas Gerais). Muitas vezes o eu lírico dialoga com a natureza.

Nem por isso trocara o abrigo terno
Desta choça, em que vivo, co’as enchentes
Dessa grande fortuna: assaz presentes
Tenho as paixões desse tormento eterno.
Antônio Soares Amora – Obras de Cláudio Manuel da Costa

No poema épico Vila Rica (1773), no qual narra o encontro de culturas e a glória de civis contra aventureiros buscando de ouro. Claudio prenuncia a consciência nacional, no sentido político e Literário, embora sua produção não seja considerada essencialmente brasileira, mas presa aos modelos literário do Ocidente. Após ser perseguido, julgado e condenado, Claudio cometeu suicídio (há quem duvide disso) na prisão.

Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810)

Gravura do poeta português Tomás Antônio Gonzaga

O português Tomás Antônio Gonzaga publica, em 1792, Marília de Dirceu, obra lírica árcade com características pré-românticas, por abordar sobre equilíbrio e harmonia e ao mesmo tempo sobre o sofrimento amoroso, solidão, tristeza, saudade, recorrente de sua prisão durante a Inconfidência Mineira. A obra Marília de Dirceu, além do tema lírico-amoroso de uma Arcádia harmônica, de um ideal burguês, possui temáticas subjetivas e reflexões sobre o destino humano, de grande apelo espiritual, refletindo sobre questões da vida, centrando-se numa análise do Eu individual e universal.

Lira I
Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,
Que viva de guardar alheio gado;
De tosco trato, de expressões grosseiro,
Dos frios gelos, e dos sóis queimado.
Tenho próprio casal, e nele assisto;
Dá-me vinho, legume, fruta, azeite;
Das brancas ovelhinhas tiro o leite,
E mais as finas lãs, de que me visto.
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!
Tomás Antônio Gonzaga – Marília de Dirceu

Toda a obra de Gonzaga se traduz numa coleção de poemas líricos e amorosos, dedicados à pastora Marília. Seus poemas foram publicados no Brasil e consumidos aqui e em de Portugal. Isso significa que o público já começava a consumir literatura do Brasil, algo bastante significativo para a consolidação do Sistema Literário. A obra satírica Cartas Chilenas (1789), poemas inacabados, dá o tom da crítica social aos péssimos costumes do Governo de Minas Gerais, acusando-o de corrupção e nepotismo. No episódio da Inconfidência Mineira, Gonzaga foi desterrado à Moçambique, África, e lá faleceu. Considerado um dos precursores da Independência, o poeta ainda hoje é homenageado como símbolo de resistência política na História e na Literatura.

Assim, temos no Arcadismo obras que dialogam entre si ao abordar temáticas semelhantes, por isso é considerada como Estilo de Época ou Escola Literária. Dessa forma, encontramos prenúncios da Identidade Nacional dentro de diversas manifestações artísticas nos séculos XVI, XVII e XVIII. No entanto, foi no Romantismo, século XIX, que se buscou dar consistência à nossa identidade, buscando nas raízes do Brasil o indígena (Indianismo) como símbolo de nacionalidade, símbolo do Bom Selvagem, de Jean Jacques Rousseau, evidenciando os aspectos da colonização, a fauna e a flora, a língua tupi, embora idealizados, conforme os parâmetros do Romantismo.

Conteúdo elaborado pelo professor Rafael Azevedo 

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Paraense, Rafael Azevedo nasceu em 1989. Formou-se em Letras em 2016 pela Universidade Federal do Pará e é professor de literatura. Já Publicou poemas e contos em antologias. É um dos autores do livro didático da disciplina de Literatura do Sistema de Ensino Equipe e escreve análises literárias para UNICAMP, PUC e FUVEST. Atualmente está escrevendo um romance e cursa mestrado na UFPA.