23/03/2018

Uma série de casos de agressão e linchamento tem preocupado os moradores na região de Sorocaba (SP). Uma pesquisa feita pela Universidade de São Paulo (USP) aponta que o estado lidera o número desse tipo de violência no Brasil. No mês de abril, três ocorrências foram registradas e, em Porto Feliz (SP), um homem morreu.

Segundo a polícia de Porto Feliz, dois assaltantes chegaram a um bar na zona rural. As câmeras de segurança registraram o crime e mostram que eles renderam os clientes. A dupla tentou ir embora, mas foi agredida. Um levou uma coronhada e o outro foi empurrado.

Dentro do bar, um dos ladrões apontou a arma. Algumas pessoas reagiram e o deteram, já o outro conseguiu fugir. Ainda segundo a polícia, o assaltante foi espancado pelos próprios clientes, levou uma facada e morreu no hospital. O outro suspeito está preso.

Os donos, assustados, preferem não gravar entrevistas, mas disseram que estão lá há quatro anos e esse foi o primeiro roubo. Apesar de serem vítimas, eles não concordam com o linchamento. O caso está sendo investigado.

“Identificamos esses dois autores que foram vítimas na ocasião e que também agrediram os dois indiciados. Contudo, agora continua a investigação. Estamos trabalhando em cima de filmagem para identificar quem são os outros agressores” afirmou o delegado de Porto Feliz, André Bonan.

Outro caso

No último sábado, um rapaz foi linchado por um grupo de pessoas no jardim Santo André. A vítima conseguiu escapar dos agressores. A polícia recebeu vários chamados. Em fevereiro, um homem foi agredido e apedrejado em Riversul, região de Itapetininga (SP). Segundo a polícia, mais de 100 pessoas participaram do ataque. O motivo seria vingança. Ele não resistiu aos ferimentos e morreu.

O estudo mais recente sobre linchamento no Brasil foi feito por pesquisadores da USP. e, desde 1980, o país teve mais de 1.100 casos, segundo a pesquisa. São Paulo está no topo da lista entre os estados. Mestre em direitos difusos, Moacyr Pereira Mendes explica a causa de tanta violência e revolta da população.

“O indivíduo sabe que a Justiça vai demorar demais para aplicar aquela pena, para punir o indivíduo que causou o ato ilícito. Então ele acaba tendo a sensação de que, se ele praticar uma ação, vai ser melhor. Ele faz justiça com as próprias mãos”, explicou.

Juiz da vara criminal, Jayme Walmer de Freitas explica que quem parte para a agressão pensando em fazer justiça acaba cometendo crime também. “É muito melhor transferir para a polícia, à promotoria, para a Justiça a solução dessa questão do que acabar com a vida de alguém. Se houver elementos de prova, ele pode responder por um homicídio que neste caso, provavelmente, a pena vai ser mínima de 12” disse.

O estudo feito pelos pesquisadores da USP durou quase 30 anos e levou em conta os casos de linchamento que acabaram em morte. Em dois casos registrados em Sorocaba, as vítimas haviam cometido os crimes.

Fonte: G1

Comentário do professor Rômulo Santos:

A manchete retrata casos de linchamento em centros urbanos do Brasil e apresenta referidos eventos como uma espécie de anseio por justiça e uma consciência coletiva da lentidão da mesma. No entanto, seria este o motivo real da incidência dos casos cada vez mais frequentes de linchamento?

O pensador contemporâneo Zygmunt Bauman, em seu livro “A cegueira moral”, aposta num desdobramento diferente para tais fenômenos sociais que vão além da simples impaciência com o sistema judiciário. Contudo, remontam uma espécie de comportamento moral que se aproveita da ação coletiva anônima com discurso de justiça para dar vazão a um comportamento violento, escudado pelo anonimato coletivo que garante a impunidade. A pesquisa de Bauman ancorou-se num conceito bastante conhecido de “Banalidade do mal” preconizado pela aclamada Hannah Arendt.